Uso excessivo de dispositivos móveis pelos pais impacta na saúde dos filhos

Uso excessivo de dispositivos móveis pelos pais impacta na saúde dos filhos

Conferir as redes sociais, ler e-mails, postar uma foto, bater papo, assistir um vídeo, fazer compras, jogar, ouvir música, checar as últimas notícias... Cada vez mais utilizamos os smartphones e tablets para as mais diferentes tarefas – e cada vez fica mais difícil resistir a tentação de dar uma espiadinha naquela mensagem ou naquele último vídeo... Estamos conectados grande parte do dia: o brasileiro passa, em média, mais de nove horas do dia navegando na Internet (três delas só em redes sociais), de acordo com dados do relatório da 2018 Global Digital, We Are Social e Hootsuite. Porém, quando passamos tanto tempo nos dispositivos móveis, muitas vezes acabamos negligenciando outros aspectos de nossas vidas, perdendo momentos que mesmo simples, podem ser significativos. É o que está acontecendo com muitos pais que usam seus dispositivos móveis em excesso, o que acaba refletindo em sua relação com seus filhos.

Para se ter uma dimensão do problema, a Digital Diaries, da AVG Technologies (empresa de segurança online), realizou em 2015 uma pesquisa com 6.117 pessoas – pais e seus filhos com idades entre oito e 13 anos. A pesquisa mostrou que 87% das crianças entrevistadas achavam que os pais usam os dispositivos móveis em excesso e sentiam-se descontentes com isso. Além disso, 56% afirmaram que confiscariam os dispositivos móveis dos pais se pudessem, e 32% das crianças entrevistadas afirmaram que se sentiam desprezadas quando os pais usavam os aparelhos. Por seu lado, 54% dos pais acreditava checar exageradamente os dispositivos móveis, e 65% admitia que se distraia com smartphones ou tablets enquanto conversava com os filhos. A pesquisa foi realizada em nove países: Austrália, Brasil, Canadá, República Tcheca, França, Alemanha, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos.

Isso pode mostrar o quanto é preocupante o efeito que as tecnologias têm causado nas relações familiares. “Em um estilo de vida onde o tempo dispensado com as demandas profissionais e sociais é elevado, a utilização excessiva de dispositivos móveis pode afetar os momentos em família”, declara Ricardo Fortes, médico analista da Evidências – Kantar Health. E é o que aponta o estudo realizado pelas Universidades de Michigan e do Estado de Illinois, ambas nos Estados Unidos, onde analisou como o uso em excesso dos dispositivos móveis pelos pais pode afetar o comportamento das crianças. Em uma entrevista com os pais, 48%, disse interromper as atividades com os filhos três ou mais vezes por dia por causa da tecnologia. Analisando o comportamento dos filhos quando os pais paravam de lhes dar atenção para acessar os dispositivos, os pesquisadores observaram que os filhos de pais que utilizam mais frequentemente a tecnologia eram mais propensos a apresentar problemas de comportamento.

De acordo com os autores, interrupções constantes para checar as redes sociais, por exemplo, atrapalham momentos entre pais e filhos, como brincadeiras, conversas e até mesmo refeições... Isso pode gerar irritabilidade e sensação de rejeição nas crianças, o que em longo prazo pode levar à hiperatividade ou depressão. “Particularmente no relacionamento familiar, isso parece contribuir para o risco de problemas psíquicos e comportamentais nas crianças e adolescentes. Os pais dificilmente poderão direcionar uma atenção de qualidade aos filhos, no momento que estão focados nos acontecimentos das redes sociais, por exemplo”, analisa Fortes.

Ainda existe mais um problema nessa questão. De acordo com a Common Sense Media, organização sem fins lucrativos que avalia a relação da mídia e tecnologia entre crianças e responsáveis, pais com filhos com idade entre 8 e 18 anos passam, em média, mais de nove horas por dia nas mídias sociais. Isso também influenciaria o comportamento das crianças. De acordo com Fortes, “as reações emocionais dos filhos podem ser manifestadas de diversas maneiras: desde brigas, agressividade, “birras” até doenças psicossomáticas e psiquiátricas”.

A frequência com que crianças e adolescentes acessam a internet vem crescendo nos últimos anos. Segundo a pesquisa da TIC Kids, 82% da população brasileira entre nove e 17 anos utiliza a rede – entre esses, o percentual dos que se conectam mais de uma vez por dia subiu de 21% para 69% apenas entre 2014 e 2016. Para elaboração da pesquisa foram feitas 2.999 entrevistas presenciais com crianças e adolescentes, bem como seus pais ou responsáveis, em todo território nacional.

Uma questão de saúde

E a saúde, como fica?

Vários estudos vêm apontando os problemas que o uso excessivo de smartphones e tablets pode acarretar na saúde. Os problemas vão desde dores no pescoço, devido à postura exigida para se manusear os aparelhos (ficar olhando para baixo) e nas palmas das mãos, por ficar constantemente carregando os dispositivos e rolando as telas, até prejuízo da qualidade do sono. Segundo um estudo da faculdade de Medicina de Harvard, publicado na renomada revista Nature, a luz azul emitida por aparelhos celulares e tablets ativa os neurônios e perturba o sono. Isso sem contar os vários estudos avaliando o impacto na vida social que o uso excessivo dessas tecnologias pode causar. O mais recente, realizado pela Universidade da Coreia, na Coreia do Sul, mostrou que adolescentes que usavam muito frequentemente esses aparelhos tinham maior chance de sofrer com problemas como depressão e ansiedade.

E não é só. No caso de crianças e adolescentes que ficam muito tempo grudadas em seus aparelhos eletrônicos, o hábito pode levar ao sedentarismo – com todas as consequências que isso pode trazer para sua saúde – e também comprometer seus relacionamentos interpessoais. “Como tudo o que é demais, o uso dessas tecnologias em excesso pode impactar de forma negativa. Quando a pessoa fica muito tempo ligada em seus dispositivos e deixa de fazer uma atividade física, por exemplo, o risco de acabar em sedentarismo é grande. Assim, deve haver um equilíbrio e um controle”, alerta Luciano Paladini, médico analista da Evidências – Kantar Health.

O lado bom

Mas não é só de lado negativo que vivem os dispositivos móveis. Muitos deles são grandes aliados na hora de manter a saúde. “A tecnologia ajuda com a questão dos wearables e apps, trazendo formas de controlar hábitos saudáveis”, aponta Paladini. Alguns aplicativos podem monitorar a alimentação, calcular a dose de insulina e organizar a carteira de vacinação. Já existem estudos mostrando que vários aplicativos vêm colaborando para aumentar a adesão a alguns tratamentos e até mesmo a qualidade de vida dos pacientes que participam de grupos de conversa.

Além disso, as novas tecnologias podem proporcionar às crianças e adolescentes experiências incríveis, que podem colaborar para o desenvolvimento afetivo, social, psicológico e acadêmico. Alguns aplicativos podem até mesmo ajudar a fazer amizades e criar vínculos. O importante é ter equilíbrio: e aqui a presença dos pais é fundamental. Eles que vão ajudar a dar o norte nessa questão, e manter o vínculo. A conexão entre pais e filhos tem que se manter mais forte do que a conexão com a internet.

A tecnologia é uma realidade, ou como disse Paladini: “Não tem como lutar contra a corrente, já que os dispositivos móveis fazem parte dessa geração. É o mundo dos nossos filhos da mesma forma que o nosso mundo era ver desenho no sofá”. Porém, porque não usá-la então a favor e ver as várias possibilidade de interação e estreitamento de relações que ela pode proporcionar?  “Ao invés de demonizar isso e limitar, o que a gente pode fazer é transformar isso como uma forma de tentar aproximar e fazer disso, um meio de gerar debates sobre temas relevantes, que os façam pensar”, comenta Paladini. Para os pais e filhos conectados, essa pode ser uma boa saída e uma ótima maneira de ficar perto de quem você ama.  “Devemos usar a tecnologia a favor dos pais a fim de gerar um ponto de contato”.

 

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