Não vacinar seus filhos é uma responsabilidade social?

Não vacinar seus filhos é uma responsabilidade social?

Aumenta o número de campanhas de vacinação ao mesmo tempo que crescem os movimentos antivacinas

Vacinar significa inserir o vírus de uma doença em um indivíduo, para que o sistema imunológico fique preparado no caso da doença ou infecção de fato acontecer naquele organismo. O ritual da vacinação está presente na vida da maioria das pessoas desde o seu nascimento, como forma de prevenir doenças e reforçar o sistema imunológico das crianças.

“As vacinas podem conter substâncias que são parecidas com os microrganismos que causam as doenças, ou podem ser até mesmo os próprios microrganismos patológicos, mortos ou atenuados, de uma forma que não sejam capazes de causar a doença”, explica Teresa Lemmer, analista de farmacoeconomia da Evidências – Kantar Health. Com esse vírus morto ou enfraquecido no organismo, o sistema imunológico produz anticorpos para eliminar a contaminação. Desta forma, se ocorrer o contágio, já existirá a “lembrança” daquele vírus e a posterior resposta imunitária correspondente, de forma que a pessoa imunizada não adoeça.

Foi observando pessoas que ordenhavam vacas que o inglês Edward Jenner criou a primeira vacina em 1796, para a varíola, doença que na época era responsável por muitas mortes e graves sequelas. O médico notou que pessoas que tinham contato com os animais contaminados pela varíola bovina até eram acometidas pela doença, mas de forma mais branda. Depois de vários experimentos, surgiu a primeira evidência científica sobre a imunização por “vaccinae”, termo em latim que significa “da vaca”.  Em meados dos anos 1880, outro médico chamado Louis Pasteur criou a vacina contra a raiva, ainda que ele tenha ficado mais conhecido pelo método de pasteurização, o processo de esterilização de alimentos.

Outras importantes vacinas foram descobertas a seguir: contra a cólera, a febre amarela, a hepatite, o sarampo, o tifo, a poliomielite (paralisia infantil), a tuberculose, a gripe, o HPV e, ainda, contra difteria, coqueluche e rubéola (vacina tríplice). “Se toda a população for vacinada, é menor a chance dos microrganismos se propagarem. É desta forma que se conseguiu erradicar algumas doenças, como o sarampo, que até algum tempo atrás tinha sido eliminado de países com programas de vacinação eficaz”, analisa Lemmer.

Revoltas contra a vacina

Não é de hoje que as vacinas causam controvérsias na população. Um dos casos mais famosos foi a revolta da vacina, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 1904, quando houve grande conflito entre governo e população acerca da campanha de vacinação obrigatória contra varíola. Muitas pessoas de origem mais humilde e com pouca informação acreditavam que a vacina, na verdade, era veneno, e se negaram a receber a visita de agentes sanitários, que acabavam entrando nas casas por vezes de forma violenta.

Atualmente, grupos antivacinas têm surgido em vários locais do mundo. Acredita-se que a ideia ganhou força depois de uma revista internacional publicar um estudo associando a vacina contra o sarampo ao autismo. Posteriormente, a publicação foi rechaçada pela comunidade científica alegando diversos erros foi e retirada da revista.

Porém, após esse episódio, percebeu-se um aumento no surto de sarampo em vários países. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só neste primeiro semestre de 2017, foram mais de 500 casos reportados na Europa. Além disso, cresce o número de pais que decidiram não vacinar seus filhos, a fim de evitar as possíveis reações que algumas vacinas podem causar. “Apesar de alguns relatos mostrarem efeitos colaterais graves de vacinas, estes não têm efeito significativo frente às evidências da prevenção de doenças pela utilização de vacinas”, defende Ricardo Saad, analista de farmacoeconomia da Evidências – Kantar Health.

No Brasil também houve queda da adesão às vacinas obrigatórias, o que levou o Ministério da Saúde a investir em campanhas de conscientização e na prorrogação de datas. De acordo com dados da Kantar IBOPE Media, entre janeiro e maio deste ano o Ministério da Saúde movimentou o equivalente a R$33 milhões com campanhas de vacinação, um crescimento de 101% em relação ao mesmo período do ano anterior. Deste montante, 68% foi destinado para Campanhas da Gripe, 16% para a do HPV e 16% para Febre Amarela.

A procura pela vacina contra HPV, por exemplo, ainda é considerada baixa, já que apenas 44% da população foi imunizada na segunda dose, sendo a meta do governo atingir 80% do público-alvo. A vacina contra a gripe passou a estar disponível para a toda população em vários estados brasileiros, não só a grupos prioritários como no início da campanha. Além da prevenção, informação e cuidados sobre as doenças são fatores determinantes para reduzir o número de casos.

Existem grupos no Facebook com mais de 11 mil membros que postam diariamente vídeos, reportagens e métodos que consideram alternativos como forma de imunização. “É um problema quando os pais escolhem que os filhos não sejam vacinados. As crianças são frágeis e não têm poder de escolha. Este é um assunto ético e muito polêmico”, alerta Lemmer.

Responsabilidade social

Mas até que ponto a decisão de não vacinar seu filho se torna uma responsabilidade social? Para o presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Aroldo Prochman de Carvalho, o ato de não vacinar é uma negligência. “A SBP condena qualquer manifestação antivacinas (...). A partir do momento em que não se vacina uma criança, coloca-se em risco toda uma população”, declarou em publicação oficial.

O ato contrário à vacina pode gerar consequências civis e penais aos pais, conforme estabelecido no artigo 14 do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) onde “é obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”. Recentemente, houve notícias de mães que foram ameaçadas de perder a guarda dos filhos por se negarem a dar vacina. “A não vacinação pode resgatar doenças que já estão erradicadas. Existem relatos de problemas gerados em escolas entre pais de crianças vacinadas e não vacinadas e os perigos que essas podem enfrentar pela falta de imunização e disseminação de doenças”, alerta Saad.

Para os especialistas, a responsabilidade de vacinar e de informar-se corretamente é dever de todos. “As campanhas de não vacinação são movimentos que existem há certo tempo e se embasam em uma série de falácias e apostam na desinformação das pessoas”, analisa Lemmer. “A vacinação é uma medida desaúde pública seja, beneficia a todos nós”.

 Notas:

Os dados da Kantar IBOPE Media são provenientes do VideoTrack, solução que permite a análise da eficiência das campanhas em televisão. O levantamento foi realizado em 15 mercados, e considera o volume de espaço ocupado em publicidade pelo anunciante em TV aberta e a tabela de preços dos veículos, desconsiderando descontos e negociações.

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