Dia das mães: informação ajuda nas decisões de saúde na hora do parto

Dia das mães: informação ajuda nas decisões de saúde na hora do parto

O direito de saber como está a saúde do bebê, qual procedimento será realizado na hora do parto e ter assistência médica e familiar são fatores determinantes na transição para a maternidade. O acesso à essas informações deve ter início desde o pré-natal até o momento em que for dar a luz. Contudo, é comum já na primeira consulta a paciente ser indicada a ter o parto cesariano. A pesquisa Nascer Brasil realizada com o Instituto Fiocruz confirma: 70% das brasileiras deseja um parto normal no início da gravidez, entretanto, poucas foram apoiadas em sua preferência e seguiram de fato com a decisão. Em média 52% dos partos são realizados por cesárea, conferindo ao Brasil o 1º lugar em procedimentos desse tipo no mundo. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que 15% dos partos sejam realizados por meio desse processo cirúrgico, no setor privado esse número chega a 88%, de acordo com o levantamento.

“Fatores como política de remuneração, maior rentabilidade, questões de agenda e tempo de espera, fazem com que essa prática seja tão comum no Brasil”, explica Simony Dantas, enfermeira analista de Medical Intelligence da Evidências – Kantar Health. Também a taxa de cesariana segundo a paridade é determinante para muitas mulheres. Em geral, 92,3% das mamães de primeira viagem realizam o parto por cesárea no setor privado. Dantas analisa esse índice como um modelo de cultura, “o próprio médico tem um papel fundamental em ajudar a mãe a procurar o melhor para ela e o que é mais correto, mas infelizmente não é sempre que ocorre essa clareza de informações. Além disso, quando não é o médico que indica, a própria mãe acaba optando pela cesárea por medo de dor ou por influência de conhecidos, é muito comum”, analisa. 

Direitos

Mesmo sendo um direito garantido por lei desde 2005, cerca de 25% das mulheres alega não ter tido a presença de acompanhantes na hora do parto, segundo a pesquisa Fiocruz realizada em 2014. Outras práticas consideradas padrões acabam sendo executadas sem consentimento da paciente. Ações que variam desde tricotomia (depilação), lavagem intestinal, episiotomia (corte feito no períneo para aumentar a passagem do bebê e evitar o rompimento da pele da vagina), dentre outros realizados por protocolo do hospital ou maternidade e que são passíveis de resultados que em geral são realizados por protocolo ou tradição.  

“Não digo que a paciente tem que escolher o procedimento como se ela fosse o técnico, mas sim é dever do médico comunicar, pedir a permissão e justificar o que vai fazer”, alerta Zélia Vieira, médica analista da Evidências – Kantar Health. “O mais importante é que haja uma comunicação com a paciente antes do procedimento, se ela desejar a episiotomia, ótimo, só não podemos ficar presos em procedimentos engessados.  Temos que ter o olhar sempre voltado para o paciente”.

Sacrifício

“A hora do parto é um momento bonito, mas tão cheio de preocupação que nos esquecemos de nós mesmas”, declara Dantas. Ainda mais quando além da dúvida, há dor, medo e angústia.  Mas porque um momento que teria tudo para ser mágico, pode se tornar algo tão traumático na vida de muitas mulheres? Para Vieira, sua experiência pessoal antes do parto não lhe foi positiva e as horas que passou esperando sua filha nascer lhes trouxeram lembranças que agora estão começando a cicatrizar. “Demorei seis anos para superar esse momento e até hoje não consigo entender. Embora eu sendo médica e soubesse de todo o processo, fiquei muito amedrontada, não me deixaram ter acompanhante, em momento algum a médica me tranquilizou de sua decisão e tampouco me senti amparada pelo hospital que me deixou mais de 24 horas em situação de urgência”.

Nesse misto de emoções, é comum as mães se sentirem vulneráveis na hora do parto: não estão doentes, precisam de atenção mas acima de tudo, a preocupação está na saúde do bebê. É necessário que haja uma equipe preparada para acolher essa futura mãe durante todo esse processo doloroso e que pode ser prolongado. Respeitar o direito de estar a par da situação dessa mulher e mãe. 

Parto humanizado e atendimento humanizado

O parto humanizado em geral, é parto mais natural possível, que respeita o tempo e a fisiologia do corpo da mãe e do bebê, onde intervenções cirúrgicas são realizadas quando necessárias.  No parto humanizado é comum a presença de uma doula, pessoa que auxilia e orienta a mãe durante todo o trabalho de parto e até meses antes. Essas profissionais ficam ao lado da mãe para ajudar com técnicas de respiração e relaxamento.

Em março do ano passado, o governo brasileiro lançou novas diretrizes a fim de garantir um atendimento mais humanizado às brasileiras durante o parto. As medidas conferem desde liberdade de posição, dieta, presença de doulas e/ou acompanhante, métodos para alívio da dor, direito ao uso da anestesia, contato pele a pele imediato da mãe com a criança após o nascimento, dentre outros.

Seja optar por não sentir dor, pelo nascimento de seu bebê com hora marcada ou da forma mais natural possível, a mamãe tem direito à se informar e ser protagonista do seu parto. Para isso, ela precisa ter alguém ao lado que a conforte e que esteja atento aos sinais e que faça desse momento o menos traumático possível. Não é à toa que obstetra significa “estar ao lado de”, e um atendimento humano, pensado não só no bebê, mas também na mãe, desde o começo, é fundamental para que ela se sinta acolhida e respeitada durante todo o caminho que está por vir.

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